sábado, 24 de outubro de 2009

solidão...



A solidão é um manto frio
que me cobre os ombros.
Os escombros de uma casa velha,
onde dantes morou um infeliz.
É um mantra triste de um sadu louco,
os versos roucos de um poeta indeciso.
O decote preciso no peito da meretriz.
A minha solidão...
É o corte impreciso de uma faca cega.
Uma cabra-cega tateando o muro.
um sopro de vela ardendo no escuro.
A solidão é minha,
é companheira.
Mora na cabeceira da minha cama,
me seduz, me acaricia, me ama.
A solidão me chama toda hora,
a noite inteira!

domingo, 13 de setembro de 2009

O fosso e o nirvana


Enquanto eu caio na fossa,
você atinge o nirvana.
Eu me contorço em versos,
você  se senta em flor de lótus.
Eu faço votos, promessas,
passo fome, esmolo...
Me enrolo em solidão,
peço perdão, me redimo.
Tenho paixão e autocompaixão,
febre, tristeza,  tenho medo!
Você sorri e toca violão.
Você é quase um saniasi,
vive no topo do himalaia.
Eu, talvez caia, mas me seguro.
Ando perdida, por aí a esmo...
Ando mesmo atirando no escuro.
Minha flecha é cega, é incerta...
Meu arco está todo quebrado.
Mas minha porta está aberta,
esperando talvez o sol entrar.
Você...  você já tem o sol em si!

sábado, 12 de setembro de 2009

Jardim insólito.


A solidão me atrai, me seduz,
me encanta, me amedronta, me vicia...
A solidão me alicia e me mata aos poucos.
Ela crava um espinho de cactus em mim.
Depois sopra uma canção e me embala,
me enrola em sua névoa cinzenta cambraia,
e em meu coração infértil e louco,
planta uma semente murcha de jasmin.
A solidão faz dele sua morada,
rega a semente murcha, todo santo dia.
Nasce em mim uma flor estranha, solitária...
Cujo aroma se assemelha a nostalgia.
A solidão com ciúmes vai embora cedo.
Eu fico aqui cuidando desse jardim insólito,
regando com lágrimas flores estranhas,
com cheiro de tristeza, piedade e medo

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A menina que vivia aqui voou...



A menina que morava aqui, em mim,
saiu pra passear, nem voltou mais.
Vestiu seu melhor vestido,
calçou seu sapato novo,
passou batom borrado nos lábios.
perfume de manga jasmin...
Se foi assim, de uma hora pra outra.
Nem se despediu, nem levou bagagem.
Não deixou nada além de saudades.
Lembranças, retratos, bugingangas...
Não fez cobranças, não pagou contas.
nem ficou me devendo nada,nada!
Nada que um dia eu possa cobra-la.
A menina que morava em mim,
apenas se cansou de tudo,
Meu mundo estava pequeno,
pra caber suas asas.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Barganha



Te dou um doce por seus sonhos,
te dou um sonho por seus beijos,
te dou amor por seus pensamentos,
te dou momentos de prazer...
Por um olhar de ternura.
Te dou minha mão em sua angústia,
por uma lágrima que seja pura.
te dou um giga de memória
por todos os seus brancos,
te dou um sorriso franco
por um simples riso amarelo.
Te dou tudo que eu quero,
e um coração pra você brincar.
Te dou a lua, o sol, o mar...
Por uma palavra qualquer,
sussurrada em meus ouvidos.
Te dou os dias que virão,
e a lembrança dos dias idos...
Te dou o que você pedir
por um segundo ao seu lado.
De dou minha felicidade
por seu fardo,
te dou meu fado, meu tango,
meu samba, minha toada...
por um esboço de verso
e mais nada!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Meu vestido de cetim



Meu vestido de cetim era lindo.
Tinha desenhos de sonhos,
estampados em fios de linhas mágicas.
Me fazia viajar no tempo...
Resgatar afetos escondidos
num passado longíquo.
Meu vestido de cetim era encantado.
Me levava onde eu queria ir...
Me vestia de fada ou de princesa.
Reluzia à luz do sol,
brilhava à luz da lua...
Meu vestido de cetim,
era tudo que eu queria ter.
Me fazia ser a mais bela.
E ele nem sequer me olhou...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

"Não seio ler..."




Atiro a primeira pedra!
Nego a outra face.
Olho por olho, dente por dente.
não perdôo setenta vezes sete.
Nem acredito em ninguém,
com mais de trinta...
Acordo tarde, não madrugo!
De grão em grão, sinto fome.
Tenho pressa e inimigos.
e tantas pedras no sapato.
Eu tenho sede de quê?
Não sei dançar balé,
"não seio ler"...
Mamei até os seis,
mas minha mãe morreu,
antes de eu fazer oito.
Tenho doze, e dezenas,
centenas... De marcas,
de picos, pancadas, facadas,
quedas, tiros, porradas.
Sou suceptível a cicatrizes!
sou um alvo fácil...
Estou com sono e cansado.
Meu tempo é curto!
E isso é tudo que sei
de mim.